INGLÊS ALÉM DA GRAMÁTICA: Quais atitudes um professordeve incluir na sua aula?
Ludicidade, acolhimento e abertura ao erro são atitudes importantes para o ensino do idioma.
Ruam Oliveira
Parceria com WINGS
02 mar. 2026
Ensinar um outro idioma exige mais do que domínio gramatical ou fluência na língua. Requer habilidades docentes como empatia, escuta ativa e reconhecimento das diferentes formas de expressão dos estudantes.
Embora não seja a língua oficial do país, o Inglês está presente no cotidiano de crianças e adolescentes brasileiros – nos jogos, nas músicas, nas redes sociais ou nas séries de TV. A BNCC (Base Nacional Comum Curricular) propõe que o componente de Língua Inglesa seja trabalhado a partir de sua função social e política, com ênfase nos potenciais interculturais do idioma.
Ainda assim, fazer com que o Inglês faça sentido na vida dos estudantes demanda criatividade e intenção pedagógica.
Alguns dados ajudam a dimensionar o desafio. O EF English Proficiency Index, um dos principais rankings internacionais de proficiência, colocou o Brasil na 75ª posição, classificando o país na categoria “proficiência baixa”, a penúltima entre cinco níveis:
- Very high proficiency – proficiência muito alta
- High proficiency – proficiência alta
- Moderate proficiency – proficiência moderada
- Low proficiency – proficiência baixa
- Very low proficiency – proficiência muito baixa
A pesquisa “Idiomas e Habilidades”, realizada pela Pearson em parceria com a organização Opinion Box, apontou que apenas 13% dos brasileiros dizem ter algum conhecimento ou se consideram realmente fluentes em Língua Inglesa.
Desenvolvido entre fevereiro e abril de 2025, o levantamento ouviu mais de 7 mil brasileiros e revelou que a maioria dos brasileiros que têm contato com Inglês ainda está nos estágios iniciais de aprendizado: 49% dizem ter nível básico, enquanto 38% alegam ter domínio intermediário.
Qual postura adotar para ajudar o estudante?
Grande parte da efetivação de aprendizagens em sala de aula passa pela maneira como o conteúdo chega aos alunos. Kelly Lopez, gerente pedagógica de Wings, sistema de ensino de Inglês voltado para educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental, com foco especial na rede pública, destaca uma ação que não é nova na mente dos professores, mas que faz toda a diferença ao ensinar: intencionalidade.
“Tudo que fazemos em sala de aula precisa ser intencional. Para dar segurança, crianças precisam de uma rotina minimamente previsível: uma música para indicar o início da aula, um gesto para dizer que precisa de silêncio, um chapéu especial para um momento de contação de histórias. Para que os alunos se engajem e tenham vontade de se comunicar, as atividades precisam se relacionar com a realidade deles – tanto para a faixa etária quanto para o contexto desses estudantes”, diz.
Uma das sugestões é centrar a aula no estudante e não no conteúdo. “E para que tudo isso aconteça o professor precisa ser intencional no seu planejamento e entrega da aula”, afirma.
Na prática
A metodologia é adotada por Maycon Rezende de Oliveira, professor do ensino fundamental – anos iniciais no Complexo Educacional Guilherme Henrique de Carvalho, em Lavras (MG). “Muitos professores focam muito no vocabulário ou gramática, às vezes até o próprio material didático traz muito isso. Eu penso em criar experiências significativas de aprendizagem para meus alunos e planejo sempre com muito propósito”, conta.
Com apenas uma aula de 50 minutos por semana, o professor Maycon tenta fazer valer a pena esse tempo em sala. Além de estabelecer junto com a turma quais são os objetivos da aula, ele afirma que planeja o conteúdo com foco no uso real da língua, partindo de situações de comunicação próximas à realidade dos estudantes.
Para ele, uma maneira de engajar os estudantes no aprendizado do idioma é focar na comunicação, garantindo para a turma que o uso real está em saber se comunicar. “Deixo muito claro para eles que língua é você entender o outro, não precisa saber perfeitamente, mas usar isso como ferramenta social”, explica.
Aprendendo a contornar o erro
Apresentar dessa maneira o idioma a estudantes que estão entre o 1º e o 5º ano é também um jeito de oferecer segurança. O medo de errar é o que, em muitos casos, pode travar o aluno.
“Minha postura é sempre valorizar a tentativa do aluno, nunca julgar o erro. Até porque muitos já vêm com uma limitação de casa e da própria sociedade, que diz que Inglês é difícil e não é para todos”, ressalta o educador.
A professora Maria José Gomes Monteiro, que ensina Língua Inglesa para turmas de 1º a 5 º ano na E. T. I. (Escola de Tempo Integral) Nossa Senhora das Graças, de Ibiapina (CE), também conversa com a turma para adequar suas aulas. A partir dos gostos compartilhados pelos estudantes, ela desenvolve projetos com música, dança e jogos, por exemplo.
“No início do ano eu já pergunto o que gostam de fazer, e também digo o quanto o Inglês já está em muitas coisas que eles fazem ou consomem, como nos videogames, na TV e nas músicas”, detalha.
Aprendizagem por projetos
Partir de estratégias centradas no estudante, propondo um Inglês como uma experiência mais ampla e não só como repetição, as chances de sucesso também aumentam. Essas iniciativas podem surgir por meio da aprendizagem baseada em projetos.
O professor Maycon desenvolveu dois projetos recentemente que tinham como mote aspectos do cotidiano dos alunos e ocasiões em que a comunicação era elemento central.
Como encerramento do projeto sobre comidas em Inglês, quando os alunos aprenderam nomes de frutas, legumes e alimentos em geral a partir do gênero textual receita e cardápio, a turma de alunos do 4º ano escreveu dois livros de receitas: “Flavors” (Sabores) e “Cookbook do Gui” (Livro de receitas do Gui), o segundo fazendo menção ao nome da escola.
Um outro projeto foi o “Pen Pal: intercâmbio da amizade” desenvolvido com alunos do 5º ano com o objetivo de promover a comunicação real em Inglês por meio da troca de cartas com estudantes do Colégio Educa e Complexo Educacional Guilherme Henrique de Carvalho, localizados a cerca de 400 metros de distância um do outro.
“A proposta possibilitou que os alunos utilizassem a Língua Inglesa de forma significativa, apresentando-se, falando sobre sua rotina, família, preferências e cultura local. A atividade também incentivou a produção escrita, a leitura e a compreensão textual dentro de um contexto autêntico de interação social, tornando o aprendizado mais motivador e concreto”, relata o educador.
Ludicidade como apoio pedagógico
Quanto mais jovens os estudantes e mais lúdicas forem as aulas, maiores serão as chances de engajamento. Luana Venturini Mulinário, professora de Inglês para turmas do ensino fundamental – anos finais na rede pública municipal de Linhares (ES), investe na leveza e na maneira recreativa para atrair a atenção da turma. “Ao levar as aulas de uma forma leve, com música, brincadeiras ou jogos, eles começam a perceber que não é tão difícil aprender. Tornar legal e divertido o primeiro contato com a Língua Inglesa marca o estudante, e ele pode levar essa sensação para o resto da vida”, conta.
Kelly ainda destaca: como as crianças menores aprendem brincando, a ludicidade se torna uma peça-chave nas aulas. “Além da ludicidade, acredito que a postura do professor diante do erro precisa ser positiva. Vou me explicar: o que você faz ou demonstra quando seu aluno erra determina se ele vai tentar de novo ou não”, diz.
Como observar o erro
“Quando seu aluno erra, diga que está tudo bem, convide ele a tentar de novo, mas dê opções ou dicas para ajudá-lo na construção de uma frase, por exemplo. Faça perguntas para ajudá-lo na compreensão de um texto. Assim, mesmo quando ele errar, se sentirá apoiado e seguirá pronto para se arriscar novamente”, completa.
Para o professor Maycon, conversar abertamente com os estudantes sobre esses erros é uma atitude fundamental. Ele destaca que, em muitas ocasiões, os estudantes não sentem receio de errar na frente do professor, mas sim na frente dos colegas por medo de virarem piada.
“Eu compartilho com eles que também tive e tenho minhas dificuldades, e reforço que cada aluno tem o seu tempo e nós precisamos respeitar. Eu celebro os pequenos avanços e também os erros, porque significa que a pessoa está tentando”, diz.
Ambiente relaxante, aprendizagem mais tranquila
Não só os estudantes, mas também muitos adultos se sentem receosos na hora de praticar o Inglês. Quem nunca travou ao tentar pronunciar uma frase em outro idioma quando não se sentiu confortável para isso? Faz parte da aprendizagem.
Tornar a aprendizagem tranquila nesses casos requer conhecer quem são os estudantes, como faz a professora Maria José.
Outra atitude sugerida pela professora Luana é criar hábitos com os estudantes: “Eu sempre chego na sala falando ‘Hello guys, good morning! How are you today?’ [Olá, pessoal, bom dia! Como vocês estão hoje?] e vou repetindo, ensino como perguntar por exemplo como foi o fim de semana e assim vamos construindo uma rotina”, conta.
A aula dela também tem bastante música: “Nós temos estudantes de diferentes realidades, então eu trago músicas também para ajudar no clima, para deixar as coisas mais alegres. Sei que existem dias mais difíceis, mas eu sempre tento transmitir essa alegria”, diz a educadora.
Adaptado de: https://porvir.org/ingles-alem-gramatica-atitudes-professor-aula/. Acesso em: 06 mar. 2026. © Copyright Porvir. R. Dona Germaine Burchard, 421, Água Branca, 05002-061 - São Paulo, SP - Brasil. Todos os direitos reservados.

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